O Vulcão Solfatara, localizado em Pozzuoli, perto de Nápoles, lança vapor a 160°C e mantém poças de lama a 95°C. É a cratera mais ativa dos Campos Flegreus, uma das maiores caldeiras vulcânicas da Europa.
A Origem do Vulcão Solfatara
A Solfatara fica nos Campi Flegrei, uma região perto de Nápoles formada por erupções gigantescas. Pense nela como uma grande área cheia de “vulcões adormecidos” espalhados por toda parte.
Diferente do Vesúvio, que é um vulcão sozinho com um único cone, os Campi Flegrei são um campo vulcânico. Isso significa que, em vez de um só vulcão, existem mais de 70 pontos diferentes por onde o magma e os gases já explodiram ou ainda podem explodir. Esses pontos estão por toda parte: embaixo das casas das pessoas, dentro do mar e também nas colinas — cada um com sua própria história.
Tudo começou com o movimento das placas tectônicas: a placa da África empurra-se lentamente por baixo da placa da Europa, derretendo rochas profundas e criando magma. Esse magma sobe por rachaduras na crosta terrestre e, ao longo de dezenas de milhares de anos, provocou explosões colossais.
Antes da Solfatara existir, a região já havia passado por transformações violentas. Há cerca de 40.000 anos, uma erupção tão gigantesca esvaziou a câmara de magma subterrânea, fazendo o chão desabar e formar uma imensa depressão — o que os geólogos chamam de caldeira. Foi o berço dos Campi Flegrei. Duas dessas megaerupções moldaram a região para sempre.
A primeira aconteceu entre 39.000 e 36.000 anos atrás. Foi tão violenta que gerou uma avalanche de cinzas superquentes, pedras e gases vulcânicos. Essa nuvem mortal desceu ladeira abaixo a centenas de graus, soterrando tudo ao redor. Ao esfriar e se compactar, formou uma camada de rocha dura e resistente chamada Ignimbrito Campaniano. Essa camada ainda hoje marca a geologia da região.
A segunda grande erupção ocorreu entre 15.000 e 12.000 anos atrás. Dessa vez, cinzas vulcânicas finas, leves e porosas caíram do céu como uma chuva cinzenta, cobrindo montanhas, vales e boa parte do que hoje é Nápoles. Com o tempo, essas cinzas se compactaram e formaram uma rocha macia de cor amarelada, o Tufo Amarelo Napolitano. Os antigos usavam muito essa rocha na construção civil — por ser leve e fácil de cortar.
Essas explosões mudaram completamente a paisagem, criando lagos como o Averno — uma água parada, sem rios para entrar ou sair, cercada por vapores tóxicos. Os antigos achavam que ele era a entrada do submundo. Seu nome vem do grego ἄορνος (áornos) , que significa “sem pássaros”, pois os vapores sulfurosos afugentavam as aves.
Foi nesse cenário geológico intenso que, há apenas 4.000 a 4.600 anos, aconteceu uma nova erupção — menor, mas muito explosiva. O magma quente (aquela rocha derretida lá do fundo) encontrou água que estava presa no subsolo. O choque entre o fogo e a água gerou uma explosão de vapor — igual quando a água cai numa frigideira quente, só que milhares de vezes mais forte.
Essa explosão abriu uma cratera no chão e jogou cinzas para todo lado. As cinzas se acumularam e formaram um morro baixo feito de rocha macia, que os cientistas chamam de tufo.
Com o tempo, o calor e os gases vindos do subsolo foram alterando essa rocha, criando o campo fumarólico ativo que conhecemos hoje como Solfatara.

Erupção de 1198
Durante o período histórico, há registros de duas atividades eruptivas nos Campos Flegrei. A primeira, em 1198 d.C., é descrita em manuscritos medievais como uma “erupção freática” (explosão de vapor) que lançou pedras e fogo — embora alguns estudos modernos a considerem incerta, baseada na re-interpretação de fontes escritas mais tardias. A segunda não foi na Solfatara propriamente dita, mas bem perto: em 29 de setembro de 1538, uma fissura abriu-se a poucos quilômetros dali e, em apenas uma semana de atividade, deu origem ao Monte Nuovo, a última grande erupção na área e que criou o vulcão mais jovem da Europa continental.
Período de Dormência e Agitações Modernas
Depois de 1198, Solfatara ficou adormecida por séculos. Mas, a partir da década de 1950, algo começou a mudar.
A primeira grande crise veio entre 1968 e 1972. O solo se elevou cerca de 1,7 metro – um fenômeno chamado bradisismo (o chão sobe ou desce lentamente).
Entre 1982 e 1984, a segunda crise foi ainda mais forte. O solo subiu 1,85 metro, aconteceram aproximadamente 16 mil pequenos terremotos e, no final de 1983, a cidade inteira de Pozzuoli (cerca de 40 mil habitantes) teve que ser evacuada.
Somando as duas crises, o solo se elevou 3,5 metros entre 1968 e 1984.
Em 2017, houve um aumento nos pequenos terremotos e na liberação de gases na Solfatara.
Estudos do INGV (o instituto que monitora vulcões na Itália) mostram que a emissão de CO₂ na área era de cerca de 1.500 toneladas por dia antes de 2017. Depois disso, aumentou significativamente.
Padrões dos Ciclos
Em áreas como a Solfatara, é comum acontecerem as chamadas erupções freáticas. São explosões causadas pelo vapor d’água, quando a água subterrânea fica muito quente — mas sem que haja lava. Todo esse movimento é monitorado de perto pelo Osservatorio Vesuviano, o instituto que estuda e vigia os vulcões da região.
Curiosidades
As temperaturas das fumarolas chegam a 160°C na Bocca Grande, com vapores saindo a até 100 km/h.
Em 1980, foi descoberto aqui um microrganismo chamado Sulfolobus solfataricus. Ele vive em águas muito quentes e ácidas, como as da própria Solfatara.
Em 12 de setembro de 2017, um trágico acidente vitimou três membros da mesma família (os pais e um filho) dentro da cratera, após cairem em uma cavidade com gases tóxicos e temperaturas elevadas.
Trilhas
Embora fechado, quando aberto, o local oferecia trilhas curtas dentro da cratera. Aqui uma lista das atrações principais:

Bocca Grande: é a principal fumarola da cratera da Solfatara, exalando vapor a 160°C e gases vulcânicos como CO2 e H2S.
Fangaia (Poças de Lama): consiste em poças de lama fervente e cinzenta, formadas pela condensação de vapor vulcânico sobre argila rica em minerais.
Bocca Nuova: é a segunda fumarola mais importante da Solfatara, exalando vapor e gases vulcânicos em temperaturas elevadas.
Ruínas Antigas: são cavernas naturais revestidas de alvenaria que funcionavam como saunas vulcânicas para tratamentos médicos. Apelidadas de “Purgatório” e “Inferno” pela diferença térmica, permitiam sessões curtas de inalação e sudorese para curar afecções respiratórias e cutâneas.
O Poço: com dez metros de profundidade, o poço do século XIX apresenta água termal cuja temperatura e nível variam conforme o bradisismo e as chuvas. Rica em minerais como alume e enxofre, foi usada para extração química e curas medievais que tratavam desde doenças de pele até problemas de fertilidade.
As Pedreiras: local onde houve extração de alume e minerais, atividade encerrada nos anos 1950.
Lendas
Entrada do Submundo: Próximo ao Lago Averno (porta do Hades na Eneida de Virgílio), lendas dizem que vapores levam almas ao inferno.
Morada de Vulcano: Os romanos viam o local como a forja do deus Vulcano, onde ele batia metais, explicando os ruídos e fumos.
As Almas do Purgatório: Alguns contos populares diziam que, em certas noites, as chamas das fumarolas eram, na verdade, as almas do purgatório subindo para pedir orações.
A Sibila Cumana e Eneias: No Livro VI da Eneida, o poeta Virgílio descreve o herói Eneias descendo ao submundo. Para isso, ele precisou de um ramo de ouro e da guia da Sibila. A entrada para essa descida era situada na região dos Campos Flégreos, onde a Solfatara é o ponto mais ativo. A névoa sulfúrica era vista como o “véu” que separava o mundo dos vivos dos mortos.
Solfatara no Cinema e na Música
- Live at Pompeii (1972, documentário): A banda britânica Pink Floyd utilizou a paisagem lunar da cratera como cenário para as gravações do filme que mesclava a performance em Pompeia com imagens dos músicos na Solfatara.
- 47 morto che parla (1950): Um filme clássico de Totò, que usou as fumarolas de enxofre da Fangaia para criar o cenário do “inferno falso”, dispensando efeitos especiais
- Viaggio in Italia (1954): A atriz Ingrid Bergman, dirigida por Roberto Rossellini, visitou o vulcão neste filme que mostra os casais estrangeiros explorando Nápoles e arredores. A Solfatara aparece como um dos locais emblemáticos, ao lado de Capri e Pompeia.
- Passione (2010): O vídeo da música “Caravan Petrol”, com Fiorello e John Turturro, foi gravado na Solfatara. O clipe mostra os atores como garimpeiros em busca de petróleo na paisagem do vulcão.
- No Time to Die (2021): O agente secreto James Bond (interpretado por Daniel Craig) tem uma das suas missões ambientadas na “Solfatara” (na verdade, uma mina de enxofre na reserva natural de Decima Malafede, nos arredores de Roma). A produção recriou vilarejos fictícios às margens de lagos mineralizados para as filmagens.
Como Comprar os Ingressos para Visitar Solfatara
Atualmente fechado desde 2017 por razões de segurança. Quando aberto, ingressos eram comprados no local ou online via Parco Archeologico dei Campi Flegrei. Preço: €8 por adulto. Verifique atualizações no site oficial para reabertura.
Informações Úteis
Endereço: Via Solfatara 161, Pozzuoli, Italy, 80078
Coordenadas Geográficas: 40.827815981194874, 14.13562408350826
Visitação: Fechado desde 2017; verifique reabertura
E-mail: [email protected]
Como chegar:
De trem (a melhor maneira)
A opção mais prática é pegar a Linha 2 do metrô de Nápoles (Metronapoli Linea 2). Você pode embarcar na estação Piazza Garibaldi (a principal estação central de Nápoles). Os trens passam com muita frequência, cerca de um a cada 6-15 minutos.
A estação onde você deve descer é a Pozzuoli Solfatara. De lá, o vulcão fica a apenas 800 metros de distância.
De ônibus
Pegue a linha 101 EAV na Napoli – Porta Nolana Staz EAV (a cerca de 750 m da Estação Central) e desça na parada Pozzuoli – Via Solfatara, Stazione Metrobus, que fica próxima da estação de metrô Pozzuoli Solfatara.
De Carro
Se vier de carro, pegue a Tangenziale di Napoli e use a saída 11 (Agnano). O caminho é curto (cerca de 4 km) e há estacionamento disponível no local. Lembre-se de evitar o centro de Pozzuoli, pois ele tem uma Zona de Tráfego Limitado (ZTL).
Segurança
A Solfatara é um vulcão ativo. Siga rigorosamente as normas de segurança, os caminhos sinalizados e as instruções do pessoal do parque. Áreas perigosas são isoladas com cercas e avisos. É obrigatório o uso de calçado fechado e adequado para caminhada. A água nas fontes não é potável, a menos que indicado de outra forma.
FAQs Na Boca do Vulcão: Aventura na Solfatara
A Solfatara está aberta? Posso visitar o parque?
Não. A cratera e o parque permanecem oficialmente fechados ao público desde o trágico acidente de setembro de 2017. Embora tenha sido retirada do sequestro judicial em 2023 (o que era um passo necessário), o local continua a aguardar uma reabertura segura.
Quando é que a Solfatara vai reabrir?
Infelizmente, ainda não há uma data concreta para a reabertura. O trabalho de requalificação é complexo e visa garantir a segurança dos futuros visitantes. A boa notícia é que o processo de reabertura está a andar: depois de décadas, o local começou a receber visitas de estudo organizadas com guias especializados que monitorizam a segurança, mas ainda não está aberto ao público geral.
Ainda vale a pena ir a Pozzuoli para visitar a Solfatara?
Sim, mas esteja ciente de que não poderá entrar. Atualmente, o acesso principal está vedado e muitos turistas relatam que as placas de sinalização a partir da estação de comboio foram retiradas. No entanto, pode ter uma vista da cratera e sentir o cheiro a enxofre a partir de um miradouro acessível por uma estrada ao lado do parque ou das colinas circundantes.
Como se pode ver o Vulcão Solfatara de fora, já que está fechado?
Pode. Siga pela Via Solfatara, e nas imediações do portão de entrada principal existe um pequeno caminho lateral que sobe uma colina (um miradouro natural) de onde é possível ter uma boa vista para o interior da cratera e observar as fumarolas ao longe, sentindo o cheiro intenso a enxofre. Muitos viajantes fazem esta visita (“do lado de fora”) e consideram a experiência interessante na mesma.
Qual é a temperatura da fumarola principal (Bocca Grande)?
A fumarola principal, chamada Bocca Grande, emite jatos de vapor a temperaturas que podem atingir os 160°C.


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